Afonso Daniel Rodrigues Castelao: "Neste intre histórico declarámonos separatistas da Hespaña"
Reproducimos un texto de Castelao extraido do "Sempre en Galiza" publicado pola páxina web galizalivre.org. Para a publicación do mesmo respetamos a ortografia orixinal da fonte:
Neste intre histórico declaramos-nos separatistas da Hespanha, ainda que o nosso separatismo seja ineficaz e impotente, pois um ideal nom sempre se baseia em cálculos de estratégia militar ou revolucionária. E se algum democrata hespanhol se assanhasse por esta confissom lembremos-lhe que preferimos morrer no desterro a viver submetidos ao artifício governativo da actual Hespanha, de modo que o nosso desterro é umha venturosa salvaçom. Nom coincidimos com todos os democratas hespanhóis no repúdio da actual Hespanha?
Mas nós cremos que a Hespanha de hoje é filha dos imponderáveis históricos, da inércia absolutista do Centro, e considerando-a como a realizaçom mais acabada do centralismo, inclusive no modo de confundir a Pátria e a Religiom com o Estado; mas é que os nossos companheiros de exílio crem que a Hespanha de hoje é um facto anormal, estranho e transitório, filho dumha loucura passageira, digno de ser tomado como inexistente, e por isso falam da Hespanha franquista como dum país invadido e sem governo próprio. Chegam a falar de “independência” como se falava em 1808...
Pois bem; discorramos agora com o critério independentista do ano 1808, quando desaparecera o artifício histórico do Estado e a verdadeira e tradicional Hespanha ressuscitava nas suas várias nacionalidades: Na mal chamada “Guerra da Independência” (para um liberal o que perdíamos com os franceses nom era senom o que ganhávamos com os flamengos) os hespanhóis piavam por Fernando VII (esse foi o grande erro) como agora piamos pola República democrática (essa será a nossa salvaçom se baixamos a puntaria). Em 1808 desaparecera até a noçom uniformista do Estado, é dizer, o centralismo, e os mesmos castelhanos tratavam de desprender-se da sua histórica hegemonia. Ilustremos de caminha esta afirmaçom com umha referência documental.
O dia 10 de Agosto do 1808 assinou-se na Corunha um tratado de uniom entre Castela e Galiza. Dumha parte figurava a “Junta Suprema do Reino da Galiza” e da outra figurava Don Tadeo Manuel Delgado “del Consejo de S. M., Alcalde del Crimen de la Real Chancillería de Valladolid, y su Diputado en la Corte, con Comisión especial para este tratado”. Vede alguns artigos do convénio: “1º Os Reinos de Galiza, Castela e Leom... em defesa da sua liberdade, empregarám toda a sua força e poder...”. “5º ... Ficará depositada a sua autoridade (a do rei) numha Junta Soberana que será obedecida como o mesmo Monarca”. “6º A Junta Soberana formará-se por parte da Galiza... (aqui os sete nomes que compunham a nossa Junta, com o bispo de Ourense e três membros mais) e pola de Castela e Leom... o Presidente da Suprema Junta de ditos Reinos, de três Indivíduos dela e umha das Províncias em que estám divididas as suas respectivas Intendências”. “9º ... haverá um Presidente que por primeira vez será nomeado indistintamente... dos três Reinos, cuja duraçom nom passará dum mês e turnará-se entre as três Naçons pola ordem com que som denominadas nos títulos reais (note-se que se lhe chama Naçons aos Reinos)”. “10º Por agora fixará-se a Junta Soberana na Cidade de Lugo...”. “14º O presente tratado ratificará-se pola Junta Suprema de Castela e Leom no preciso termo de oito dias (note-se que ambos Reinos tinham umha Junta comum, correspondente à sua unidade nacional)”.
Damos bastantes detalhes do contrato para que se veja como em 1808 a desfeita do Poder central provocou um pacto federativo entre as naçons hespanholas, declarando-lhe a guerra a Napoleom, “porém dos seus omnipresentes atributos”, com mentes de ampliar depois o pactos às demais nacionalidades da Coroa. Mas é cousa de ver como um delegado de Castela foi à Galiza para dar cima a umha espécie de Tripla Aliança em termos de estrita igualdade, porque naquele intre folgavam as hegemonias e os privilégios artificiais.
Lembramos, pois, este documento para que os democratas hespanhóis fiquem moralmente invalidados para seguir fulminando anátemas contra “Galeuzca”, que é um pacto de naçons tam asobalhadas como Castela em tempos de Dom José I (um rei preferível a Fernando VII). Enfim; nós advertimos que a incompreensom de muitos democratas hespanhóis dimana de que agora Hespanha nom está invadida por estrangeiros, senom por absolutistas hespanhóis, que vinhérom a remachar a hegemonia de Castela baixo o sinal bruto do “totalitarismo”. E por isso os castelhanos nom venhem agora a nós como em 1808, porque agora só há injúria nacional para bascos, cataláns e galegos, que perdêrom até os Estatutos.
Castelao, Afonso Daniel Rodrigues. Sempre em Galiza. Livro III, Cap. XXXII





